Um vinho do bom

29 junho 2026

Eu tenho uma playlist que vai contra um dos meus melhores motes: não me deixe provar do melhor se for pra me fazer malquerer o que eu gosto. Mentira. Não é um mote e é, com certeza, um pensamento raso. 

Mas se aplica a vinhos e vamos partir daí. 

Eu não consigo discernir um bom vinho de qualquer outro. Nem minhas papilas gustativas obtusas. E se eu não consigo no primeiro gole, não vai ser na terceira taça. E por que eu iria querer? Tá aí algo que não me veste: a vontade de me restringir ao melhor só pra tornar todo o resto dispensável. 

Foi assim que surgiu essa playlist. Não é bem uma recomendação. Ela não tem uma curadoria razoável e tá aqui num caráter ilustrativo. Músicas que eu gosto, mas guardo pra momentos específicos. Como eu guardaria um vinho do bom da safra rococó expressionista

Peguem suas taças.

3 em 3: perspectivas e métricas

19 junho 2026

Faz-se necessário se desorganizar. E assim eu fiz: cavuquei gavetas demais, desembrulhei memórias, empilhei roupas e me peguei deitado no chão olhando para a cama de um jeito que nunca antes. Na verdade, eu tava olhando para os bastidores da cama. A parte de baixo. Vexaminosamente empoeirada. O quarto pareceu maior e eu me perguntei quantos outros ângulos de uma casa chegando aos trinta junto comigo eu nunca explorei.

Mas eu nem tô aqui pra falar disso. A aflição começou quando eu fui buscar uma foto HORIZONTAL para ilustrar o post anterior. Precisava ser horizontal? Sim, pois inventei esse tique logo após o almoço enquanto eu me revezava entre pensamentos avulsos e um pudim. E foram poucos os achados. Olhar horizontalmente se tornou pretensioso pra mim e, aparentemente, agora eu só existo numa composição desengonçada e vertical. Sem muito ao redor. Será visão periférica me causa ansiedade?

Pausa para mais uma foto horizontal oriunda das minhas suadas 
buscas por pastas de meados de janeiro de 2010.

Já sabemos que: 1. É importante se deitar em côncavos, cantos e espaços limiares da casa pra saber onde tá sujo. 2. Preciso equilibrar melhor as orientações das minhas fotos e compensar meu desaforo com o modo paisagem (enquanto sigo ciente do quão individual é esse conselho). 

E chegamos no terceiro tópico.

Decidi, bem depois do pudim acabar, eu desistir de me desorganizar e voltar as roupas para seu lugar de conforto (afinal, um de nós precisa habitá-lo), que eu precisaria de uma métrica para classificar a solidão. Eu sei. Nonsense. Mas me aproximei de uma métrica justa. Vê se você concorda: quantos dias úteis até alguém perceber que você partiu dessa? Se eu morro às 16h32 de uma quarta, quantos dias ÚTEIS até alguém notar? Sabendo, é claro, que o dia útil começa no horário comercial.  

Eu não me ressentiria pelo possível descaso defuntífero (visto que o país funciona pouco antes do Carnaval e morrer num feriado imprensado é quase de mal gosto), mas achei reconfortante ter uma resposta pra isso. Ainda mais depois de maquinar várias estratégias para que eu seja eternamente pendente na vida alheia. Vou sempre deixar pra amanhã o que eu posso resolver hoje, porque a dose certa de ausência faz ninho no pensamento alheio. 

Logo, sabemos que: seja pendência na vida de terceiros. Serve pra tudo que vem antes de morrer também. 


Me acorde em treze anos ou mais

09 junho 2026

Em algum lugar da casa soa um alarme. De hora em hora. Breve, sucinto e com pouco a dizer. Não me consterna porque eu sei quem é o responsável. Um relógio marrom de pulso, de camelô e de muitos adjetivos não favoráveis. Imagino que se esconda no fundo de uma gaveta que não me atrevo a abrir. Mas o principal ainda não foi dito: ele está adiantado. Aproximadamente treze minutos. E quem diria que isso seria o mais encantador desse som empoeirado? 

Ele me avisa que ainda tenho treze minutos e aquilo que poderia me incomodar só me coloca em alerta. Me lembra dos meus próprios ponteiros e de um tempo que eu não posso controlar, mas posso usar ao meu favor.

Comecei esse blog há uns treze anos com alguma intenção. Não sei ao certo qual, mas sei que eu não pretendia falar comigo mesmo ou uma versão mais cansada de mim. E foi exatamente nisso que esbarrei. Lembrei que esse lugar existia. Privado. Resguardado. Talvez vizinho do relógio precoce do início desse texto em uma gaveta mais profunda. Fui ávido atrás dos meus escritos e pensamentos de um jovem-eu ainda não calejado. 

Achei tão pouco. Quantitativamente mesmo. Só um punhado de pensamentos, vontades e alusões. Queria ter passado uma madrugada debruçado sobre quem eu era ou pensava ser, mas eu sequer tinha dez minutos de registros.

Uma foto (horizontal) de 22 de outubro de 2016. Quase dez anos desde esse céu. 

E assim eu deixei a vida passar: pessoas, lugares, momentos, acertos, dores e afins. Confiei demais numa memória calejada. Deixei que ela pescasse pensamentos num lago raso. Sigo faminto (e seguiria de qualquer forma, pois não como peixe).

Sinto falta disso. Dos meus parênteses obtusos falando nada-com-nada. Mas sinto mais falta de ser. Sinto falta de registrar. Ainda mais agora, sabendo que lá na frente alguém vai se propor a ver e ouvir. Ou vai esbarrar em algo talvez insignificante para o mundo, mas que me avisa que ainda faltam treze minutos para a hora virar. Alguém mais atento do que eu fui.