Faz-se necessário se desorganizar. E assim eu fiz: cavuquei gavetas demais, desembrulhei memórias, empilhei roupas e me peguei deitado no chão olhando para a cama de um jeito que nunca antes. Na verdade, eu tava olhando para os bastidores da cama. A parte de baixo. Vexaminosamente empoeirada. O quarto pareceu maior e eu me perguntei quantos outros ângulos de uma casa chegando aos trinta junto comigo eu nunca explorei.
Mas eu nem tô aqui pra falar disso. A aflição começou quando eu fui buscar uma foto HORIZONTAL para ilustrar o post anterior. Precisava ser horizontal? Sim, pois inventei esse tique logo após o almoço enquanto eu me revezava entre pensamentos avulsos e um pudim. E foram poucos os achados. Olhar horizontalmente se tornou pretensioso pra mim e, aparentemente, agora eu só existo numa composição desengonçada e vertical. Sem muito ao redor. Será visão periférica me causa ansiedade?
Já sabemos que: 1. É importante se deitar em côncavos, cantos e espaços limiares da casa pra saber onde tá sujo. 2. Preciso equilibrar melhor as orientações das minhas fotos e compensar meu desaforo com o modo paisagem (enquanto sigo ciente do quão individual é esse conselho).
E chegamos no terceiro tópico.
Decidi, bem depois do pudim acabar, eu desistir de me desorganizar e voltar as roupas para seu lugar de conforto (afinal, um de nós precisa habitá-lo), que eu precisaria de uma métrica para classificar a solidão. Eu sei. Nonsense. Mas me aproximei de uma métrica justa. Vê se você concorda: quantos dias úteis até alguém perceber que você partiu dessa? Se eu morro às 16h32 de uma quarta, quantos dias ÚTEIS até alguém notar? Sabendo, é claro, que o dia útil começa no horário comercial.
Eu não me ressentiria pelo possível descaso defuntífero (visto que o país funciona pouco antes do Carnaval e morrer num feriado imprensado é quase de mal gosto), mas achei reconfortante ter uma resposta pra isso. Ainda mais depois de maquinar várias estratégias para que eu seja eternamente pendente na vida alheia. Vou sempre deixar pra amanhã o que eu posso resolver hoje, porque a dose certa de ausência faz ninho no pensamento alheio.
Logo, sabemos que: seja pendência na vida de terceiros. Serve pra tudo que vem antes de morrer também.



