Em algum lugar da casa soa um alarme. De hora em hora. Breve, sucinto e com pouco a dizer. Não me consterna porque eu sei quem é o responsável. Um relógio marrom de pulso, de camelô e de muitos adjetivos não favoráveis. Imagino que se esconda no fundo de uma gaveta que não me atrevo a abrir. Mas o principal ainda não foi dito: ele está adiantado. Aproximadamente treze minutos. E quem diria que isso seria o mais encantador desse som empoeirado?
Ele me avisa que ainda tenho treze minutos e aquilo que poderia me incomodar só me coloca em alerta. Me lembra dos meus próprios ponteiros e de um tempo que eu não posso controlar, mas posso usar ao meu favor.
Comecei esse blog há uns treze anos com alguma intenção. Não sei ao certo qual, mas sei que eu não pretendia falar comigo mesmo ou uma versão mais cansada de mim. E foi exatamente nisso que esbarrei. Lembrei que esse lugar existia. Privado. Resguardado. Talvez vizinho do relógio precoce do início desse texto em uma gaveta mais profunda. Fui ávido atrás dos meus escritos e pensamentos de um jovem-eu ainda não calejado.
Achei tão pouco. Quantitativamente mesmo. Só um punhado de pensamentos, vontades e alusões. Queria ter passado uma madrugada debruçado sobre quem eu era ou pensava ser, mas eu sequer tinha dez minutos de registros.
E assim eu deixei a vida passar: pessoas, lugares, momentos, acertos, dores e afins. Confiei demais numa memória calejada. Deixei que ela pescasse pensamentos num lago raso. Sigo faminto (e seguiria de qualquer forma, pois não como peixe).
Sinto falta disso. Dos meus parênteses obtusos falando nada-com-nada. Mas sinto mais falta de ser. Sinto falta de registrar. Ainda mais agora, sabendo que lá na frente alguém vai se propor a ver e ouvir. Ou vai esbarrar em algo talvez insignificante para o mundo, mas que me avisa que ainda faltam treze minutos para a hora virar. Alguém mais atento do que eu fui.



